5 formas estruturais em música popular e erudita

Entenda como funcionam algumas das principais formas usadas para estruturação musical

“Sem organização, a música seria uma massa amorfa, tão ininteligível quanto um ensaio [ou texto] sem pontuação, ou tão desconexa quanto um diálogo que saltasse despropositadamente de um argumento a outro” (SCHOENBERG, Arnold. Fundamentos da Composição Musical, 2008).

Essa frase do grande Arnold Schoenberg resume bem a ideia de estrutura na música. Praticamente qualquer música profissionalmente produzida que você já ouviu segue algum tipo de estrutura: é graças a ela que nós conseguimos entender e gostar delas.

Existem algumas estruturas macro padronizadas, amplamente usadas em vários estilos musicais diferentes. São as formas.

(Para aproveitar melhor este conteúdo, é importante que você entenda o conceito de tema. Esse e outros assuntos são abordados em profundidade no curso Teoria Musical para Compositores.)

1) Forma-canção

Na música popular existe uma forma muito tradicional de se escrever música: a forma-canção. Ela consiste basicamente de:

Introdução

Verso

Ponte

Refrão

(e repete)

De vez em quando a forma-canção conta com um trecho diferente de tudo, chamado “Middle Eight” (ou “contraste”). Neste vídeo eu mostro, seção por seção, uma música minha chamada Rays on the Water, analisando também seu arranjo:

Muito provavelmente você já está bem acostumado com a estrutura de canção, então vamos a outras.

Pra música instrumental muita gente também usa a forma-canção, mas existem muitas outras possibilidades (e nada impede que você use estas próximas em música cantada também!).

2) Forma binária

A forma binária consiste em:

Tema A (x2)

Tema B (x2)

É comum na música antiga que o tema A seja desenvolvido ao redor da tônica e o tema B, ao redor da dominante (por exemplo, o tema A em Dó Maior e o tema B em Sol Maior). Você pode querer ouvir os exemplos mais de uma vez, e acompanhar na partitura, para assimilar as informações:

Haendel Menuet
Fonte: Freescore.com

A primeira peça, Minueto I, é em Ré menor. O tema A é tocado do início até 0:15, depois se repete entre 0:16 e 0:26. O tema B começa em seguida, entre 0:27 e 0:37, e se repete de 0:37 a 0:48. Depois, a música toda começa a se repetir até 1:32. Repare que a harmonia e as melodias se repetem sempre de forma idêntica nas repetições de cada tema (o que é característica da forma binária).

No Minueto II, Händel usa novamente a forma binária. A diferença mais interessante aqui é que 0 arranjo (ou seja, os instrumentos utilizados) e as intensidades (forte ou fraco) são sempre diferentes em todas as repetições. Caso contrário, a música ficaria muito maçante.

No exemplo acima ambos os temas têm 8 compassos. Mas existem situações onde o tema B é mais longo que o tema A para que o compositor explore outras tonalidades. Exemplo:

Aqui, o tema A tem 9 compassos (0:00 a 0:14; repete de 0:14 a 0:28) e o tema B tem 13 (0:28 a 0:48; repetindo de 0:48 ao final do vídeo).

Com algumas liberdades, o tema principal do jogo The Legend of Zelda também segue a forma binária.

3) Forma ternária

A forma ternária consiste em:

Tema A 1 (x2; exposição)

Tema B (contraste)

Tema A 2 (repetição)

Em geral, na forma ternária o tema B é bem diferente do tema A, para gerar um contraste forte e ser possível manter a forma clara. Ouça e acompanhe a partitura:

O tema A (0:00 a 0:13, repetido até 0:26) tem um caráter mais “arrastado” e “triste”, enquanto o tema B (0:27 a 0:36, e 0:37 a 0:47) é bem mais “alegre” e “ágil”. No retorno ao tema A (0:47), Schumann passou a melodia para a região grave para gerar uma novidade, mas ela continua sendo a mesma (e seu caráter “melancólico” permanece).

4) Forma Rondó

No rondó temos um tema principal, recorrente, intermediado por várias seções contrastantes diferentes entre si:

Tema A

Tema B (um episódio)

Tema A’

Tema C (outro episódio)

Tema A”

(Tema D, Tema A”’, Tema E, Tema A””…)

Para evitar a monotonia, é importante que o tema A tenha alguma variação a cada repetição. Exemplo:

A primeira iteração do tema A começa em 0:03 e vai até 0:30 (incluindo duas repetições). O tema B, primeiro episódio, vai de 0:30 a 0:48. Temos então a segunda iteração do tema A, até 1:02. O tema C, segundo episódio, vai de 1:02 a 1:50. E lá vem outra repetição de A! Mas como estamos no final da música, ela termina de forma mais intensa.

5) Forma variação

Essa forma consiste em trabalhar um único tema tantas vezes quanto o compositor quiser, mas sempre fazendo alterações a cada repetição. No curso Teoria Musical para Compositores, abordamos algumas formas interessantes de variar motivos sem perder a coesão da música (como variações de ritmo, harmonia, adição de novas melodias, mudanças de tonalidade e andamento…). As possibilidades são infinitas e só dependem da sua imaginação!

Aqui, o tema é apresentado até 0:49 e depois sofre diversas variações. É comum compositores eruditos pegarem temas de outros compositores para criar variações (neste caso, Liszt pegou um tema de J. S. Bach). Na música popular, provavelmente você seria acusad@ de plágio…


Essas e outras formas foram ilustradas de forma super didática com biscoitos algum tempo atrás, recomendo conferir!

Autor: Thiago Schiefer

Thiago Schiefer é um compositor brasileiro radicado em Toronto, Canadá. Focado principalmente em música e efeitos sonoros para games nos últimos anos, já foi compositor e sound designer na Tapps Games, a maior empresa brasileira de jogos para smartphones. Criou também todos os sons para jogos como Eliosi's Hunt e Drop Dead Twice e musicou o curta-metragem A Visita, de Leonardo Pimenta. Em sua carreira solo, lançou dois álbuns: Prototype: Freedom (2013) e Living Room Sessions (2015).

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