Como cobrar pelo seu trabalho? Ou: quanto esperar do orçamento de um freelancer criativo

Apareceu um trabalho e você não sabe como cobrar? Tá com vontade de fazer de graça pra ter portfólio? Não tome nenhuma decisão sem ler este texto!

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Texto originalmente publicado no blog Naco de Pão

Ultimamente, este tem sido um tema recorrente nas minhas conversas nos mais diversos círculos. Nós, brasileiros criativos, aparentemente temos “medo” de colocar um valor financeiro no nosso trabalho, o que faz com que muitos de nós trabalhem só “por portfolio” ou a preço de banana “pra ganhar o cliente”. Então, baseado em algumas leituras e muitas conversas que tive nos últimos tempos, aí vão alguns parâmetros pra você, compositor (e talvez qualquer freelancer  criativo) cobrar pelo seu trabalho.

1. Quanto você gasta para realizar o trabalho?

Você sempre gasta alguma matéria-prima para trabalhar. Energia elétrica para o computador, lápis e papel pra quem escreve partitura à mão, água pra não morrer desidratado… Sem contar as ocasiões em que você tem que contratar um ou mais profissionais externos (músicos, estúdio etc.), visitar o cliente… Isso quer dizer que, se você não cobra nada pelo seu trabalho, das duas uma: ou você está investindo em alguma coisa, ou está pagando para trabalhar. Tenha sempre consciência disso.

2. Quanto você investiu em estudos e equipamento para fazer o trabalho como faz?

Estudantes de Música
Você lá, ralando desde criança pra aprender a tocar, e o cara quer seu trabalho de graça…

É aquela velha história do cara que é chamado para consertar alguma coisa, faz o trabalho em 5 minutos e cobra R$ 500. O cliente reclama: “Mas como assim? Você só levou 5 minutos!”; e o profissional responde “Eu estudei por 4 anos e trabalhei com isso por 6 para conseguir resolver seu problema nesse tempo”.

Ok, eu podia ter contado a história melhor, mas o resumo é: você se dedicou por um tempo X ao ofício, possivelmente gastou uma grana com cursos e equipamentos, e isso precisa ser considerado na hora de estabelecer seu preço.

3. Qual a média do mercado?

Se você cobra muito menos do que a média do mercado, você detona o mercado para si mesmo e para os outros.

Exemplo: um cliente procura o Compositor A para fazer X minutos de música, que cobra R$ 300 por minuto de música composta, gravada, mixada e masterizada (acredite, isso não é tanto no nosso mercado). Esse valor, por ser o primeiro cotado, passa a ser a referência do cliente.

O Cubase 9, por exemplo, está custando R$ 2.299 à vista...
O Cubase 9, por exemplo, está custando R$ 2.299 à vista…

Imagine o Compositor B cobrando R$ 100 por música finalizada. Esse valor, em boa parte dos estilos, não corresponde nem de longe ao custo de se produzir música hoje – com softwares de produção na casa dos 600 dólares, equipamentos de – por baixo – R$400, plugins dos mais variados preços, cursos livres de mais de R$ 500… E, em face dessa oferta, o preço do Compositor A – e do resto da classe – passa a ser visto como abusivo por aquele cliente.

Se mais e mais pessoas começam a cobrar R$ 100 por música, todos os clientes passarão a achar que esse é o preço médio do mercado, e logo nem o Compositor A, nem o B, nem nenhum outro conseguirá cobrar valores muito diferentes deste. Pense em custo de vida: um aluguel em São Paulo, por exemplo, custa por baixo R$ 1200 (chegando a R$ 4000 ou mais em determinadas regiões da cidade). Ou ainda: uma compra de mercado para uma semana custa mais do que R$ 100. Que dizer dos cursos – algo necessário para o aprimoramento de qualquer profissional.  Imagine quantas músicas cada um vai ter que fazer a R$ 100 para se manter!

4. Qual o custo da sua hora de trabalho?

Relógio
Hora de trabalho: quanto vale a sua?

Um jeito comum de se calcular valores (ainda que não o único) é pela sua hora de trabalho. Você pode chegar ao seu valor usando os parâmetros mencionados acima (custos de produção, o tempo e dinheiro que dedicou a estudos, o valor do equipamento que usa para trabalhar, sua experiência e a média do mercado). Leve em conta também o valor do trabalho de profissionais de outras áreas como referência: uma faxineira em São Paulo, por exemplo, recebe algo em torno de R$ 20-30 por hora de trabalho, com o contratante arcando com os custos “de produção” (água, luz, produtos de limpeza…). Eu já ganhei R$ 15 por hora para dar aulas de música numa escola – o que, como sei hoje, é um valor ínfimo.

“Fórmula”

Então vamos lá… não é uma fórmula incontestável ou definitiva, mas já é um ótimo ponto de partida:

Custos de base + Sua hora de trabalho = Preço final

Se o cliente pechinchar, você pode deduzir do valor da sua hora de trabalho, mas nunca dos custos de base – caso contrário, você está pagando para trabalhar.

Mas eu preciso de portfolio…

Aí a gente chega naquela questão que todo criativo já enfrentou. Um compositor que nunca compôs para um cliente, um ilustrador que sempre desenhou só para si e um designer que nunca pegou um freela não têm como provar que sabem trabalhar para briefing. E, no desespero de ter portfolio, você se oferece para trabalhar de graça – ou, pior, por muito pouco.

Reunião
“Então, aqui é onde eu vou colocar meu portfolio…” / “Mas não tem nada aí” / “É, mas vai ter se você quiser trabalhar comigo!”

Trabalhar por muito pouco é pior do que trabalhar de graça porque você passa a estabelecer uma referência para o mercado, como dito acima. Se você precisa de portfolio, por mais que isso não seja o ideal, o provável é que você faça um ou dois trabalhos “de graça” (não mais, pelo amor dos seus filhinhos). Neste caso, você está investindo.

Agora, imagine-se como um profissional da bolsa de valores. Você vai comprar qualquer ação que cair no seu colo? Não, né? Você vai escolher aquela que vai te dar um retorno maior. Mesma coisa com trabalhos de graça. Não vá na conversa do “cliente” que está te oferecendo “uma oportunidade incrível de fazer parte de algo maravilhoso”: quem tem que decidir se a oportunidade vale a pena é você.

Porém, nunca trabalhe de graça pra quem vai lucrar com seu trabalho. Se alguém vai ganhar dinheiro no negócio, você tem que no mínimo cobrir seus custos. Um procedimento comum para contratantes que não têm capital inicial é a divisão de lucros (também conhecida como rev share): neste caso, nenhum dos envolvidos está ganhando nada a princípio, mas todos estão criando portfolio e, se em algum momento o projeto em questão der lucro, todos receberão uma porcentagem pré-estabelecida. É justo e ninguém sai perdendo. Foi o acordo que eu fiz com o pessoal do Staroids: The Odyssey e é a realidade de boa parte dos projetos independentes (seja em games, filmes ou o que for).

Concluindo

Não trabalhe por pouco, calcule o valor do seu trabalho com responsabilidade e só trabalhe “de graça” se ninguém mais estiver ganhando dinheiro com o projeto. Assim, todo mundo fica feliz =)

Autor: Thiago Schiefer

Thiago Schiefer é um compositor de São Paulo. Focado principalmente em música e efeitos sonoros para games nos últimos anos, é compositor e sound designer na Tapps Games, a maior empresa brasileira de jogos para smartphones. Criou também todos os sons para jogos como Eliosi's Hunt e Drop Dead Twice. Em sua carreira solo, lançou dois álbuns: Prototype: Freedom (2013) e Living Room Sessions (2015).

Uma consideração sobre “Como cobrar pelo seu trabalho? Ou: quanto esperar do orçamento de um freelancer criativo”

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